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FLUIDOS NEWTONIANOS E NÃO NEWTONIANOS: CONCEITOS, COMPORTAMENTOS E IMPACTOS NO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS

  • Foto do escritor: Micelli Camargo
    Micelli Camargo
  • há 12 horas
  • 8 min de leitura
fluido newtoniano

Os fluidos estão presentes em praticamente todos os processos industriais, desde sistemas de bombeamento de água e óleo até o transporte de polpas, tintas, pastas, alimentos e produtos químicos.


Apesar de muitas vezes serem tratados de forma semelhante nos cálculos de engenharia, nem todos os fluidos se comportam da mesma maneira quando submetidos ao escoamento.


É justamente nesse ponto que surge uma distinção fundamental da mecânica dos fluidos: a diferença entre fluidos newtonianos e fluidos não newtonianos.


Essa classificação está diretamente ligada à viscosidade, que é uma propriedade relacionada à resistência que o fluido oferece ao escoamento. Em termos práticos, quanto maior a viscosidade, maior tende a ser a dificuldade para o fluido se movimentar.


Esse conceito é essencial porque a viscosidade influencia perdas de carga, potência de bombeamento, seleção de equipamentos, regime de escoamento e comportamento operacional de tubulações e máquinas hidráulicas.


Fluido Newtoniano


Os fluidos newtonianos são aqueles que obedecem à Lei de Newton da viscosidade. Essa lei estabelece que a tensão de cisalhamento (τ) é proporcional à taxa de deformação ou gradiente de velocidade (du/dy), sendo a viscosidade dinâmica (μ) a constante de proporcionalidade. Em termos matemáticos, essa relação pode ser expressa por:


τ = μ·(du/dy)


Essa expressão mostra que, para um fluido newtoniano, a viscosidade permanece constante, desde que a temperatura também permaneça constante. Em outras palavras, ao aumentar a tensão de cisalhamento, a taxa de deformação aumenta proporcionalmente, mas a viscosidade do fluido não se altera por causa disso.


O comportamento é linear, previsível e compatível com a maior parte das formulações clássicas da mecânica dos fluidos.


É importante destacar a observação sobre a temperatura. Quando se afirma que a viscosidade de um fluido newtoniano é constante, isso não significa que ela nunca muda, mas sim que ela não varia com a taxa de deformação sob uma mesma condição térmica.


Para líquidos, de modo geral, o aumento da temperatura provoca redução da viscosidade. Já para gases, ocorre o comportamento oposto em muitas situações de engenharia. Portanto, ao analisar um fluido newtoniano, a hipótese de viscosidade constante está associada à manutenção da temperatura aproximadamente constante ao longo do processo.


Graficamente, o comportamento de um fluido newtoniano é representado por uma reta em um gráfico de tensão de cisalhamento versus taxa de deformação. A inclinação dessa reta está associada ao valor da viscosidade. Quanto mais inclinada a curva, maior a viscosidade do fluido.


Assim, fluidos diferentes apresentam retas com inclinações distintas, mas todos mantêm a característica linear. Esse é o caso da água, de muitos óleos, de solventes e de diversos fluidos industriais comuns.


fluido newtoniano
Comportamento de um fluido newtoniano

Essa previsibilidade é a razão pela qual a maior parte da mecânica dos fluidos foi desenvolvida com base em fluidos newtonianos.


Equações amplamente utilizadas, como a equação da energia, as formulações para perda de carga, os critérios de escoamento e diversos procedimentos de dimensionamento de bombas e tubulações, assumem implicitamente que a viscosidade é constante. Isso simplifica muito a análise e torna o comportamento do sistema mais fácil de prever.


Fluidos Não-Newtonianos


Entretanto, nem todos os fluidos seguem esse padrão. Existem substâncias cujo comportamento foge à Lei de Newton da viscosidade. Nesses casos, a relação entre tensão de cisalhamento e taxa de deformação deixa de ser linear, e a viscosidade passa a variar em função do esforço aplicado, do tempo de aplicação ou até do histórico de deformação do material.


Esses fluidos recebem o nome de fluidos não newtonianos.


A grande importância prática dessa classificação está no fato de que, quando um fluido não newtoniano está presente em um processo, as equações tradicionais da mecânica dos fluidos já não podem ser aplicadas de forma direta e simples. É necessário adaptar os cálculos, rever parâmetros, utilizar modelos específicos e, em muitos casos, empregar o conceito de viscosidade aparente em vez de viscosidade constante.


Isso afeta diretamente o dimensionamento de bombas, motores, tubulações, válvulas e sistemas de controle.


Por exemplo, em um fluido newtoniano, o número de Reynolds é calculado com base em uma viscosidade bem definida. Já em fluidos não newtonianos, essa abordagem precisa ser modificada, pois a viscosidade pode variar ao longo do processo.


Assim, utiliza-se frequentemente uma viscosidade aparente (μₐₚ), obtida a partir do comportamento real do fluido nas condições de operação. Essa adaptação é indispensável para avaliar corretamente o regime de escoamento, as perdas energéticas e a resposta hidráulica do sistema.


Entre os fluidos não newtonianos, existem vários tipos de comportamento. Cada grupo exige uma interpretação própria e, muitas vezes, modelos matemáticos específicos. Entre os mais importantes estão os fluidos pseudoplásticos, dilatantes, plásticos, tixotrópicos, reopéticos e viscoelásticos.


Fluido Pseudoplástico


Os fluidos pseudoplásticos são bastante comuns na indústria. Nesse tipo de comportamento, a viscosidade diminui à medida que aumenta a taxa de deformação. Isso significa que o fluido apresenta inicialmente uma resistência maior ao escoamento, mas vai se tornando menos viscoso conforme é mais intensamente movimentado. Em outras palavras, quanto mais ele é cisalhado, mais facilmente tende a escoar.


Esse comportamento tem implicações práticas relevantes. Um dos principais pontos de atenção está na partida do sistema. Como o fluido pode apresentar viscosidade mais elevada no início da movimentação, o esforço exigido do motor e do conjunto de bombeamento pode ser maior justamente nesse instante.


Por isso, no dimensionamento de bombas que trabalham com fluidos pseudoplásticos, a condição de partida merece análise cuidadosa, especialmente do ponto de vista da corrente de partida do motor, da potência requerida e da estratégia de acionamento.


Um exemplo bastante conhecido de comportamento pseudoplástico é o ketchup, que escoa com mais facilidade após ser agitado ou submetido a esforço. Em aplicações industriais, diversos produtos pastosos, soluções poliméricas, tintas e suspensões apresentam comportamento semelhante, exigindo cuidado adicional no projeto hidráulico.


fluido pseudoplastico
Comportamento de um fluido pseudoplástico

Fluidos Dilatantes


Já os fluidos dilatantes apresentam o comportamento oposto. Neles, a viscosidade aumenta com o aumento da taxa de deformação. Isso significa que, à medida que o fluido é mais intensamente solicitado, ele oferece mais resistência ao escoamento. Em um primeiro momento, pode parecer um fluido relativamente fácil de movimentar, mas conforme o cisalhamento aumenta, ele tende a endurecer do ponto de vista reológico.


Esse comportamento cria um risco operacional importante. Ao contrário do caso pseudoplástico, em que a partida costuma ser mais crítica, no fluido dilatante o problema pode aparecer durante a operação em regime permanente, sobretudo se houver aumento excessivo da velocidade, da vazão ou da intensidade de cisalhamento.


Nessas situações, a viscosidade cresce, a potência demandada pode subir significativamente e o motor pode ser sobrecarregado. Em alguns casos, torna-se necessário limitar a operação do equipamento para impedir que o fluido atinja uma faixa de viscosidade excessiva.


Um exemplo didático muito conhecido de fluido dilatante é a mistura de amido de milho com água, frequentemente demonstrada em experiências e programas de televisão. Quando submetida a um esforço brusco, a mistura se comporta quase como um sólido; quando o esforço é suave, ela escoa como um líquido.


Esse exemplo ajuda a visualizar como certos fluidos não newtonianos podem alterar radicalmente seu comportamento de acordo com a forma como são solicitados.


fluido dilatante
Comportamento de um fluido dilatante

Fluidos Plásticos (Casson e Bingham)


Outro grupo importante é o dos fluidos plásticos. Nesses materiais, existe uma tensão de cisalhamento mínima necessária para que o escoamento comece. Enquanto essa tensão limite não é atingida, o material se comporta como se estivesse praticamente em repouso, resistindo ao movimento. Somente após superar esse valor inicial o fluido passa a escoar.


Esse comportamento é extremamente importante do ponto de vista de engenharia, porque significa que não basta apenas considerar a viscosidade: é preciso também avaliar a tensão mínima necessária para iniciar o movimento. Em termos práticos, isso pode tornar a partida do sistema ainda mais crítica, exigindo maior torque inicial e maior capacidade do motor ou do sistema de acionamento.


Dentro dos fluidos plásticos, há comportamentos clássicos modelados por formulações específicas, como os fluidos de Bingham, fluido Casson e outros modelos reológicos derivados.


Dependendo do caso, depois de vencida a tensão inicial, o fluido pode passar a se comportar de forma aproximadamente linear ou apresentar características adicionais de não linearidade. Por isso, o cálculo de escoamento, perdas de carga e dimensionamento de equipamentos precisa ser ajustado conforme o modelo reológico aplicável.


fluido casson fluido binghan
Comportamento de um fluido Casson e um fluido Bingham

Além dos fluidos cuja viscosidade varia em função da taxa de deformação, existem fluidos cujo comportamento também depende do tempo. É o caso dos fluidos tixotrópicos e reopéticos.


Fluido Tixotrópico


Nos fluidos tixotrópicos, a viscosidade diminui com o tempo quando o fluido permanece sob cisalhamento. Isso quer dizer que, ao continuar sendo movimentado, o fluido vai ficando progressivamente menos viscoso. Se o esforço for interrompido e o material permanecer em repouso, ele tende a recuperar gradualmente sua condição original.


Esse comportamento é relevante em processos em que o material permanece sendo bombeado, agitado ou recirculado por longos períodos.


Do ponto de vista operacional, isso significa que um sistema pode apresentar uma condição mais severa no início e uma condição mais branda após certo tempo de operação contínua. Essa característica interfere na análise de estabilidade do processo, na escolha de equipamentos e até na lógica de controle empregada para acionamento e variação de velocidade.


fluido tixotropico
Comportamento de um fluido tixotropico

Fluido Reopético


Nos fluidos reopéticos ocorre o inverso dos fluidos tixotrópicos. A viscosidade aumenta com o tempo sob cisalhamento.


Assim, quanto mais tempo o fluido é submetido ao esforço, maior passa a ser sua resistência ao escoamento.


Embora esse comportamento seja menos frequente em aplicações correntes, ele existe e pode representar um desafio significativo, pois o sistema pode começar operando em condição aparentemente favorável e se tornar progressivamente mais exigente ao longo do tempo.


fluido reopético
Comportamento de um fluido reopético

Fluidos Viscoelásticos


Por fim, há os fluidos viscoelásticos, que apresentam um comportamento ainda mais complexo, pois combinam características viscosas e elásticas. Em determinados momentos, o material responde como um fluido viscoso; em outros, apresenta resposta semelhante à de um material capaz de armazenar energia e reagir elasticamente à deformação.


Esse tipo de comportamento é comum em materiais poliméricos, massas, géis e diversas substâncias industriais especiais.


A presença de comportamento elástico em um fluido tem impactos importantes na engenharia, porque o material não apenas dissipa energia por viscosidade, mas também pode armazená-la temporariamente. Isso altera a dinâmica do escoamento, a resposta a variações de pressão, o comportamento em bombas e tubulações e, em alguns casos, a estabilidade do próprio processo.


fluido viscoelástico
Comportamento de um fluido viscoelático

Conclusões


Em termos de aplicação industrial, a principal mensagem é clara: identificar corretamente o tipo de fluido com que se está trabalhando é indispensável para realizar um dimensionamento confiável.


Um sistema projetado para água ou óleo pode não funcionar adequadamente ao bombear fluidos não-newtonianos como pastas, suspensões concentradas, fluidos alimentícios ou produtos químicos complexos.


A diferença não está apenas em uma propriedade numérica, mas no próprio modo como o fluido responde ao esforço.


Quando um fluido não newtoniano está envolvido, pode ser necessário utilizar viscosidade aparente, modelos reológicos específicos, correlações ajustadas para Reynolds modificado, critérios diferenciados para perda de carga e abordagens particulares para seleção de bombas e motores.


Em muitos casos, também é essencial observar a condição de partida, o comportamento em regime permanente e a possibilidade de variação de viscosidade ao longo do tempo.


Portanto, o estudo dos fluidos newtonianos e não newtonianos não é apenas um tema teórico da mecânica dos fluidos, mas um conhecimento decisivo para aplicações reais de engenharia. Entender como cada fluido se comporta permite projetar sistemas mais seguros, eficientes e robustos, evitando falhas operacionais, sobrecarga de equipamentos, subdimensionamentos e perda de desempenho.


Em síntese, os fluidos newtonianos são aqueles cuja viscosidade permanece constante para uma dada temperatura e cuja relação entre tensão de cisalhamento e taxa de deformação é linear. Já os fluidos não newtonianos apresentam viscosidade variável e podem responder de maneiras muito diferentes dependendo da intensidade do cisalhamento, do tempo de aplicação e da natureza do material.


Entre os comportamentos mais importantes estão os pseudoplásticos, dilatantes, plásticos, tixotrópicos, reopéticos e viscoelásticos.


Compreender essa distinção é essencial para qualquer profissional que atue com bombeamento, transporte de fluidos, processos industriais, mineração, saneamento, petróleo, alimentos, química ou equipamentos hidráulicos.


Quanto maior o entendimento sobre o comportamento reológico do fluido, maior a capacidade de escolher corretamente o método de cálculo, os parâmetros de projeto e os equipamentos mais adequados para cada aplicação.


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